Sílvia da Conceição Pires Fidalgo Monteiro
- Freguesia de Duas Igrejas
- Trigo barbela
- Pan Caseiro
Pan Caseiro
Trigo barbela
1968
Nasceu, cresceu e fez a sua escolaridade em Duas Igrejas. Ainda jovem emigrou para França, onde trabalhou na área das limpezas. Por lá casou e, há cerca de 30 anos, regressou a Portugal, onde exerce funções como auxiliar de ação direta com idosos. Sempre a sua mãe fez pão caseiro em forno de lenha para alimentar a família e, quando necessário, também sabe meter a mão na massa, preparar o forno e cozer pão caseiro, preservando um saber-fazer transmitido entre gerações.
Freguesia de Duas Igrejas
Duas Igrejas (Dues Eigreijas) é uma freguesia localizada a ocidente da sede do concelho de Miranda do Douro, integrando os lugares de Duas Igrejas, Cércio, Vale de Mira e Quinta do Cordeiro. A povoação principal situa-se a aproximadamente 10 km da cidade de Miranda do Douro, desenvolvendo-se ao longo de uma linha de água que estrutura o vale e condiciona historicamente a ocupação humana e a organização do território.
O povoamento da freguesia é muito antigo, conforme atestado pela diversidade e relevância do seu património arqueológico. Duas Igrejas surge referida em documentação medieval desde período precoce, enquanto a localidade de Cércio, antiga freguesia entretanto extinta, é mencionada nas Inquirições de D. Afonso III, datadas de 1258, evidenciando a consolidação administrativa e social deste território na Idade Média.
Ao longo da sua história, a freguesia assumiu também relevância estratégica em contextos políticos e militares. Durante a Guerra dos Sete Anos (1756–1763), a casa paroquial de Duas Igrejas funcionou como quartel-general do Marquês de Sárria, facto que reforça a importância histórica do lugar no quadro regional.
O património cultural e arquitetónico da freguesia constitui um elemento estruturante da identidade local. Destacam-se a igreja medieval de Duas Igrejas, as igrejas e capelas existentes nos diferentes lugares, os cruzeiros e fontes históricas, bem como o “Abrigo da Solhapa” , sítio com vestígios de arte rupestre que testemunha práticas humanas pré-históricas e reforça o valor patrimonial do território.
Com uma área aproximada de 4 926 hectares e uma população residente de cerca de 599 habitantes, a freguesia apresenta uma base económica predominantemente ligada à agricultura e à pecuária, complementada por atividades como a transformação de mármores e granitos, carpintaria, mecânica, construção civil, comércio e artesanato, refletindo uma economia local diversificada e adaptada aos recursos endógenos.
A dinâmica sociocultural é sustentada por um tecido associativo ativo, com particular destaque para as associações culturais e recreativas e para os grupos de pauliteiros, expressão central do património cultural imaterial mirandês. O calendário festivo, distribuído pelos vários lugares da freguesia, contribui para a coesão comunitária e para a salvaguarda das práticas culturais tradicionais, reforçando o papel de Duas Igrejas como território de continuidade histórica, cultural e social.
Trigo barbela
O trigo barbela é uma variedade antiga de trigo mole tradicionalmente cultivada em regiões do interior de Portugal, incluindo Trás-os-Montes, adaptada a condições edafoclimáticas exigentes, como solos pobres, altitude elevada e regimes de sequeiro. Trata-se de um cereal rústico, de baixo rendimento quando comparado com variedades modernas, mas com elevada resiliência, tolerância ao frio e grande capacidade de adaptação a sistemas agrícolas tradicionais, tendo desempenhado um papel central na agricultura familiar e de subsistência.
Historicamente, o trigo barbela esteve associado à produção de pão caseiro, com fermentação lenta e cozedura em forno a lenha, valorizado pela sua durabilidade e densidade nutricional. A sua palha longa era utilizada na alimentação animal e na cama do gado, integrando uma lógica de aproveitamento integral dos recursos. Atualmente, o trigo barbela é reconhecido como recurso patrimonial e cultural, relevante para a salvaguarda da biodiversidade agrícola e para estratégias contemporâneas de valorização de sistemas alimentares tradicionais e sustentáveis.
Receita:
Pra uma fornada de 15 pães, no dia anterior, é necessário fazer uma bola de “massa fermento” e deixar levedar a noite toda.
Junta-se 1kg de farinha de trigo barbela, o fermento de padeiro, água e uma pitada de sal. Amassa bem com pouca água morna, até ficar uma bola de massa. Cubra com um pano e deixe ficar toda a noite a levedar.
No dia seguinte, na masseira do forno comunitário, coloque 5 pratos de farinha de trigo barbela, faça um buraco no meio e junte aos poucos água morna temperada com sal. Desfaça a bola que fez no dia anterior que vai servir de fermento e incorpore a toda a massa. Vá acrescentando a farinha, sempre amassando e trabalhando bem, até que a farinha se comece a desprender das mãos e do fundo da masseira. Trabalhe bem a massa. Cubra-a com um pano e um cobertor e deixe-a levedar durante 2 horas no inverno e um pouco menos no verão.
Depois fingem-se a massa dando-lhe o formato de fogaças (pães grandes). Faça uma cruz no meio de cada uma. Coloque num estrado plano sobre um lençol até a massa duplicar de volume.
Entretanto já acendeu o forno com lenha de xara e galhos secos de carrasco, oliveira e nebro. O forno tem de estar bem quente. Nota-se quando a parte de cima do forno está quase branca.
Trabalhe bem o forno com o ranhadeiro (vara seca de madeira dura ou ferro), que esmiúça bem as brasas contra o solar do forno. Por fim puxe todo o borralho sobrante para a boca do forno.
Introduza as fogaças no forno. No início pode tapar a bota do forno por algum tempo, mas estar sempre atento para que o pão não torre demasiado por cima.
Depois de introduzir o pão deve proferir a seguinte oração contra a boca do forno:
“Que San Bicente t’acrecente i San Juan te faga bun pan.
” Terminar com o sinal da cruz.
O pão está cozido ao fim de uma hora. Armazenar em local seco.
Para além da receita...
Todas as famílias confecionavam o seu próprio pão em fornos comunitários, mais ou menos para 10 dias. O trigo barbela ou centeio colhido pelas famílias, era armazenado para o ano inteiro, em tulhas e arcas, recetáculos que o protegiam das humidades e dos ratos. Ao longo do ano ia sendo moído em moinhos (rios e ribeiras) e azenhas (rio Douro).
O “dia de amassar” era um dia de muito trabalho para as mulheres, mas de imensa felicidade, sobretudo para os mais pequenos. As mães confecionavam “ressebadas” e “chamoscadas” (pão redondo pequeno e espalmado) que cozia muito rápido e se comia quente com um fio de azeite no meio.
No borralho do forno as mães assavam cebolas que eram comidas quentes (ficavam doces). Assavam ainda batatas, que depois de levarem um murro, eram comidas quentes com uns grãos de sal grosso.
O “bolho” de pão quente acabado de sair do forno, foi sempre uma comida muito apreciada pela pequenada, mormente quando se podia adicionar mel ou açúcar preto.
