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Mário do Nascimento Curralo

De La Tierra Pa La Mesa

Perdizes de caça

Animais de caça

1939

Nasceu, cresceu e fez a escolaridade em Bila Chana de Braciosa. Cumpriu a tropa em Vila Real e no Porto. Entretanto emigrou para a França, onde trabalhou na construção civil em Paris. Voltou para Portugal em 1982. Continuou a vida trabalhando as terras que herdou dos pais e também tem sido criador de “canhonas mirandesas”.

Sempre se lembra de haver muitas perdizes pelo termo de Bila Chana. Os camponeses caçavam-nas com laços e “achuelos”. Ainda se recorda de haver caçadores de matavam mais de 50 num só dia de caça. Refogadas com cebola e azeite sempre foram um manjar dos deuses.

Freguesia de Vila Chã de Braciosa

Vila Chã da Braciosa (Bila Chana) é uma freguesia situada no extremo sudeste do concelho de Miranda do Douro, integrando os lugares anexos de Fonte Aldeia e Freixiosa. A sede da freguesia localiza-se a cerca de 15 km da cidade de Miranda do Douro, com acessibilidades asseguradas pela Estrada Municipal 602, via Duas Igrejas, e pelo Caminho Municipal 1128, através de Freixiosa e Cércio.

O território apresenta evidências de povoamento desde períodos muito antigos, comprovadas pela existência de castros e pela presença de vestígios arqueológicos de cronologia romana. No lugar de Casicas foram identificados diversos materiais romanos, apontando para a existência de um antigo casal rural. Em Fonte Aldeia, o topónimo e a tradição local associam-se igualmente à presença de um antigo castro romano no Monte da Trindade, ainda que atualmente subsistam poucos vestígios.

Vila Chã da Braciosa distingue-se pela forte preservação das tradições locais, nomeadamente da Língua Mirandesa, na qual a localidade é designada por “Bila Chana”. O património arquitetónico vernacular constitui um elemento identitário central, com destaque para as curraladas mirandesas, tipologia construtiva tradicional que reflete práticas agro-pastoris adaptadas ao território e ao clima.

Com uma área aproximada de 4 282 hectares e cerca de 327 residentes, a freguesia apresenta uma base económica predominantemente assente na agricultura, vinicultura, olivicultura e pecuária, atividades que estruturam a paisagem e a organização social local.

A dinâmica comunitária é reforçada por um tecido associativo ativo, no qual se destaca a Galandum Galundaina – Associação Cultural, reconhecida pelo seu papel na valorização da música, da língua e da cultura mirandesa.

O património edificado e arqueológico inclui a Casa Paroquial do século XVI, a Igreja Matriz de Vila Chã, de origem românica embora bastante alterada, a capela de Santa Cruz e a capela da Santíssima Trindade, bem como as igrejas e capelas de Freixiosa e Fonte Aldeia. Destacam-se ainda os castros do Castrilhouço e das Castralheiras, as atalaias da Sentinela e da Belage e o conjunto de elementos patrimoniais que reforçam a relevância histórica, cultural e identitária da freguesia de Vila Chã da Braciosa.

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Animais de caça

A caça integrou historicamente o sistema alimentar e cultural da Terra de Miranda, constituindo uma atividade complementar à agricultura e à pecuária, profundamente enraizada nos ritmos sazonais e no conhecimento do território. Espécies cinegéticas como a perdiz, o coelho-bravo, a lebre e, em contextos específicos, o javali, desempenharam um papel relevante na alimentação tradicional, sobretudo em períodos de maior escassez de proteína animal doméstica. A caça implicava um saber técnico e ambiental apurado, assente na leitura da paisagem, no respeito pelos ciclos naturais e na transmissão intergeracional de práticas, regras informais e códigos comunitários que regulavam o acesso aos recursos faunísticos.

Entre os animais de caça, a perdiz assumiu particular destaque no receituário tradicional, sendo valorizada pela qualidade da carne e associada a preparações culinárias de carácter festivo ou excecional. Paralelamente à sua importância alimentar, a caça adquiriu, nas últimas décadas, uma dimensão económica e turística relevante através do turismo cinegético, atraindo praticantes nacionais e estrangeiros para o território. Esta atividade contribui para a dinamização económica local, promovendo a gestão sustentável dos espaços rurais, a valorização da paisagem e a fixação de práticas reguladas que articulam conservação da biodiversidade, tradição cultural e desenvolvimento territorial.

Receita:

Para a confeção desta receita utilizam-se quatro perdizes selvagens, devidamente preparadas e limpas. Começa-se por fazer um refogado num tacho com azeite e um pouco de banha, juntando uma cebola grande picada e dois dentes de alho. Deixa-se alourar ligeiramente, em lume brando, até a cebola ficar macia e aromática.

Juntam-se então as perdizes cortadas em quartos e tempera-se com sal, colorau, um ramo de salsa, uma folha de louro e um raminho de tomilho. Quem apreciar um leve picante pode acrescentar uma malagueta. Envolve-se bem a carne no refogado e deixase estufar lentamente, com o tacho tapado, para que as perdizes libertem os seus sucos e ganhem sabor. Sempre que necessário, pode juntar-se um pouco de água, apenas a suficiente para evitar que o molho seque.

A cozedura deve ser lenta e prolongada, até as perdizes ficarem bem tenras e o molho apurado. Servem-se quentes, acompanhadas de batatas cozidas com a pele, que se descascam no momento de comer, como é tradição.

Para além da receita...

O “Praino” Mirandês, até fim dos anos 80 do século XX, foi um verdadeiro paraíso para a caça miúda, sobretudo perdizes, codornizes, tordos, coelhos e lebres. O cultivo generalizado de cereais e lentilhas, a policultura de vinha, oliveira e imensas hortas disseminadas por todos os termos, com água, serviam de alimento e bebedouro à caça.
Por outro lado, o típico minifúndio tinha divisões entre as parcelas, com paredes e arbustos, assim como vários mini bosques dispersos na paisagem, que constituíram excelentes elementos de refúgio e nidificação da caça.

Com o rápido abandono da cultura dos cereais e lentilhas, a mecanização do arranjo da terra que destrói ninhos e esconderijos, com o recurso crescente e generalizado de herbicidas e pesticidas, com o grande abandono das hortas tradicionais e com a problemática da mixomatose do coelho e aumento exponencial de armas de caça, a caça começou gradualmente a escassear, embora ainda faça parte integrante dos hábitos destas terras.