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Maria Julieta Moreira

De La Tierra Pa La Mesa

Sopas de la segada cun garbanços

Gravanços e outras leguminosas

1962

Nasceu, cresceu e fez a escolaridade em Samartino. De muito jovem aprendeu a tecer com a mãe, profissão que exerceu 16 anos. Casou com um GNR e por essa razão rumou a Lisboa, onde viveram 25 anos.

Já 20 anos que regressaram à Pruoba e aí trabalham as terras que herdaram da família.

Sempre se lembra de comer “sopas cun garbanços” na época da segada. Eram muito saborosas. Agora já muito tempo que não as faz.

Freguesia da Póvoa

Póvoa (Pruoba) é uma freguesia do concelho de Miranda do Douro implantada numa várzea rural, localizada a cerca de 11 km a nordeste da sede concelhia, à qual se encontra ligada pela Estrada Municipal 543. Situada no coração do Planalto Mirandês, a freguesia integra parcialmente o território do Parque Natural do Douro Internacional, beneficiando de um enquadramento paisagístico e ambiental de elevado valor.

O povoamento do território remonta, pelo menos, ao período romano, como atestam os diversos vestígios arqueológicos identificados, bem como a presença de uma antiga via romana, conhecida localmente como estrada mourisca. Este eixo histórico, associado a marcas rupestres popularmente designadas como “pegadas do mouro”, reflete a continuidade de ocupação e a sobreposição de influências culturais ao longo do tempo, incluindo vestígios de presença islâmica.

A freguesia apresenta uma matriz marcadamente rural, com forte predominância da atividade agropecuária, destacando-se a criação de gado bovino e o seu reconhecimento enquanto território de referência da Raça Mirandesa. Neste contexto, assume particular relevância o Santuário de Nossa Senhora do Naso, padroeira dos mirandeses, constituído por um conjunto edificado que inclui igreja, capelas e um miradouro natural, sendo palco de uma romaria anual de grande expressão regional, realizada nos dias 6, 7 e 8 de setembro.

Póvoa distingue-se igualmente pela riqueza do seu património cultural imaterial. A freguesia mantém vivas tradições como o teatro popular mirandês, conhecido como “colóquios”, as danças de pauliteiros e a música tradicional, com destaque para os tocadores de gaita-de-foles. A forte densidade de cruzeiros, uma das mais elevadas do distrito, reforça o carácter religioso e simbólico do território. A origem do topónimo, derivado do latim Popula, remete para a atribuição de terras de sesmaria, associadas a processos históricos de povoamento.

Com uma área aproximada de 2 242 hectares e cerca de 208 residentes, a base económica da freguesia assenta na agricultura e na pecuária, complementadas por atividades como a construção civil, o artesanato — nomeadamente tecelagem e cestaria — e o comércio local. O património edificado inclui a Igreja Matriz, o Santuário de Nossa Senhora do Naso, diversas capelas, cruzeiros emblemáticos, vestígios de estruturas produtivas tradicionais, como moinhos, fráguas e lagares, e sítios arqueológicos e devocionais que reforçam a singularidade histórica, cultural e identitária da Póvoa.

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Gravanços e outras leguminosas

Os gravanços (grão de bico) ocupam um lugar estruturante na alimentação tradicional da Terra de Miranda, integrando um conjunto mais amplo de leguminosas que desempenharam historicamente um papel fundamental na dieta das populações rurais. Cultivados em regime de sequeiro e adaptados a solos pobres e a condições climáticas exigentes, os gravanços constituíram uma fonte essencial de proteína vegetal, energia e saciedade, sobretudo em contextos de economia de subsistência. A sua utilização na cozinha tradicional está associada a pratos de inverno, caldos, guisados e acompanhamentos, muitas vezes em articulação com hortícolas, cereais e pequenas quantidades de carne ou enchidos, numa lógica de equilíbrio nutricional e aproveitamento dos recursos disponíveis.

Para além dos gravanços, outras leguminosas como o feijão, a fava e a ervilha seca integraram de forma regular o receituário da Terra de Miranda, refletindo práticas agrícolas diversificadas e uma forte ligação aos ciclos sazonais. Estas leguminosas eram valorizadas pela sua capacidade de conservação, pela versatilidade culinária e pelo contributo para a fertilidade dos solos, através de rotações simples. No contexto gastronómico mirandês, as leguminosas assumem não apenas uma função alimentar, mas também cultural, estando associadas a modos de vida, saberes agrícolas e práticas culinárias que reforçam a identidade do território e a memória coletiva das suas comunidades.

Receita:

As sopas de la segada cun garbanços começam pela preparação de um caldo rico de carnes. Numa panela grande colocam-se uma galinha velha, cerca de um quilo de carne de vaca própria para cozer e um naco de presunto. Junta-se uma cebola inteira e cobrese tudo com água. Leva-se a lume brando e deixa-se cozer lentamente até as carnes ficarem bem tenras e o caldo apurado. Retiram-se então as carnes, reservam-se para outro uso, e retifica-se o sal do caldo. De seguida colocam-se dois punhos de massa de estrelinha a cozer no caldo das carnes.

À parte, cozem-se os garbanços em água temperada com sal e uma cebola, até ficarem macios. Depois de cozidos, escorrem-se e reservam-se. Entretanto prepara-se o pão: numa terrina grande corta-se uma fogaça de pão de trigo caseiro em fatias muito finas, no sentido longitudinal, formando lamelas o mais delicadas possível.

Quando a massa de estrelinha estiver cozida, deixa-se o caldo arrefecer cerca de cinco minutos. Misturam-se então os garbanços no caldo e, com a ajuda de uma concha, vertese o caldo com a massa e os grãos sobre o pão fatiado. O pão deve ficar bem coberto, de forma a amolecer sem secar, mas sem excesso de líquido para que as sopas não fiquem demasiado aguadas. Tapa-se a terrina e deixam-se as sopas repousar cerca de dez minutos antes de servir.

Para além da receita...

Enquanto noutras regiões são designadas por açordas, na Terra de Miranda, os pratos confecionados à base de caldo e pão, são designados por “sopas”. O que se designa por sopa em língua portuguesa, em língua mirandesa designa-se comummente por caldo.

Confecionavam-se muita variedade de “sopas”: da segada, da matança, de tomate, de alho, de cavalo cansado…

Apesar de ser um prato apenas com hidratos de carbono, concentram todo o sabor que das carnes cozidas do caldo deixaram. Essas carnes cozidas eram depois comidas e aportavam a proteína necessária ao organismo.