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António Branco Fernandes

De La Tierra Pa La Mesa

Bacalhau passado por uobos cun freijones berdes guisados cun uobos

Bacalhau

1960

Nasceu, cresceu e fez a escolaridade em Picuote. Cumpriu o seu tempo de tropa em Portalegre e Évora. Ainda trabalhou nas barragens da região. Esteve 11 anos em França. Atualmente é funcionário do Município e trabalha as terras que herdous dos pais. O bacalhau sempre foi um prato que se comeu bastante em sua casa. O bacalhau frito previamente passado por ovos e salsa, acompanhado com feijão verde estufado com ovos é um prato que adora e gosta de confessionar.

Freguesia de Picote

Picote (Picuote) é uma freguesia do concelho de Miranda do Douro, situada em pleno Planalto Mirandês, no topo das Arribas do Douro, integrada no Parque Natural do Douro Internacional. A freguesia abrange as localidades de Picote e Barrocal do Douro e confronta com as freguesias de Vila Chã de Braciosa, Palaçoulo e Sendim, bem como com território da vizinha Espanha, assumindo uma posição de elevada relevância paisagística e ambiental.

O território apresenta evidências de ocupação humana desde épocas muito remotas, comprovadas pela abundância de vestígios arqueológicos. Destaca-se a existência de um povoado fortificado com origem na Idade do Ferro, cujas características estruturais e materiais apontam para uma posterior romanização, refletindo a continuidade do povoamento e a importância estratégica do local ao longo do tempo.

Um momento determinante da história contemporânea de Picote é a construção da Barragem Hidroelétrica de Picote, entre 1954 e 1958, cuja inauguração ocorreu em janeiro de 1958. Esta infraestrutura teve um impacto profundo na dinâmica demográfica, social e económica da freguesia, introduzindo novos fluxos populacionais, infraestruturas e formas de relação com o território, e projetando Picote à escala regional e nacional.

Paralelamente, Picote afirma-se como um território de forte identidade cultural, com particular destaque para a preservação, valorização e uso ativo da Língua Mirandesa. A presença da língua no quotidiano, na toponímia e nas práticas comunitárias constitui um elemento distintivo da freguesia e um ativo fundamental do seu património cultural imaterial.

Com uma área aproximada de 1 995 hectares e cerca de 301 residentes, a freguesia apresenta uma base económica assente na agricultura e na vitivinicultura, complementadas por atividades como a carpintaria, a serralharia e a construção civil. O património edificado e paisagístico inclui igrejas e capelas, cruzeiros, fontes, lagares de azeite, moinhos em ruína, miradouros naturais e a própria barragem, articulados com um tecido associativo ativo que contribui para a coesão social, a valorização do território e a continuidade das práticas culturais locais.

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Bacalhau

O bacalhau ocupa um lugar central na gastronomia e na identidade alimentar portuguesa, constituindo um dos produtos mais emblemáticos da cozinha nacional, apesar de não ser capturado em águas portuguesas. A sua introdução e consolidação na dieta resultam de processos históricos ligados à navegação, ao comércio marítimo e às técnicas de salga e secagem, que permitiram a conservação prolongada do peixe e a sua disseminação por todo o território. Ao longo do tempo, o bacalhau foi integrado nas cozinhas regionais, dando origem a um vasto repertório de preparações que articulam simplicidade técnica, economia de recursos e forte valor simbólico, particularmente associado a contextos festivos e religiosos.

Em Miranda do Douro, o bacalhau assume igualmente um papel relevante no receituário local, coexistindo com produtos de forte matriz territorial, como as carnes e os enchidos. A sua presença nas ementas locais destaca-se, ainda, pela elevada procura por parte de turistas espanhóis, para quem o bacalhau representa um elemento distintivo da gastronomia portuguesa e um fator de atração quando visitam o território. Esta procura contribui para a valorização do produto enquanto recurso gastronómico estratégico, reforçando a ligação entre tradição culinária, identidade cultural e dinâmica turística transfronteiriça.

Receita:

Para esta receita utilizam-se quatro postas de bacalhau do lombo, previamente bem demolhadas. As postas devem ser secas com um pano, passadas por farinha e depois por ovo batido, ao qual se junta bastante salsa picada. Aquece-se azeite numa frigideira e frita-se o bacalhau dos dois lados, até ficar dourado e estaladiço por fora, mantendo-se suculento por dentro. Retira-se e reserva-se quente.

Para acompanhar, preparam-se os freijones berdes guisados cun uobos. Lava-se bem cerca de dois quilos de feijão-verde tenro da horta, retiram-se as pontas e, com uma faca, cortam-se as vagens ao meio no sentido longitudinal. Numa panela larga coloca-se azeite, uma cebola picada e um dente de alho, deixando alourar ligeiramente. Junta-se o feijão verde, tempera-se com sal e uma folha de louro e deixa-se cozer lentamente durante cerca de meia hora, até ficar bem tenro.

Quando o feijão estiver cozido, batem-se cinco ovos como para omelete e vertem-se diretamente sobre o guisado. Mexe-se com cuidado até o ovo começar a solidificar, sem deixar cozer em demasia, de modo a manter uma textura húmida e envolvente. Por fim, juntam-se algumas gotas de vinagre e salsa picada. Serve-se o bacalhau frito acompanhado do feijão-verde guisado com ovos, tudo bem quente.

Para além da receita...

Este era um prato muito confecionado para a merenda (18 horas) das segadas. Essa colheita era uma azáfama grande para toda a família, principalmente para as mulheres que precisavam tratar das refeições e trabalhar ao mesmo tempo que os restantes elementos da família. Era por isso um prato confecionado na noite da véspera. Uma vez nos campos, colocavam-se as panelas com o feijão e o bacalhau diretamente al sol e mantinham-se sempre quentes como se fossem confecionados no momento. As refeições das segadas tinham uma dupla função: a de deixar repousar o corpo cansado à sombra do sol tórrido e a de restaurar as forças com a alimentação. Eram por isso momentos muito apreciados e desfrutados.