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Adélia Pires

De La Tierra Pa La Mesa

Canhono Mirandés assado cun batatas a rodar, pumientos assados i Molho de tomate

Cordeiro / Canhono Mirandês DOP

1974

Nasceu no hospital de Miranda de l Douro. Cresceu e fez a escolaridade em Malhadas e Miranda. Com apenas 14 anos foi trabalhar num restaurante para Miranda. Aprendeu a cozinha com sua mãe. Atualmente tem um café restaurante e serve refeições volantes em eventos. Em Malhadas sempre se cozinhou o“canhono”. No último fim-de-semana de outubros, há uma festa comunitária antiga em Malhadas que lhe chamam a “machorra”. Nessa festa come-se canhono mirandês assado i em caldeirada.

Freguesia de Malhadas

Malhadas (Malhadas) é uma freguesia situada na zona central do concelho de Miranda do Douro, inserida numa região relativamente plana e com elevada aptidão agrícola. De características marcadamente rurais, constitui ainda hoje um dos aglomerados populacionais mais relevantes do concelho. A localidade dista cerca de 9 km da sede concelhia, sendo servida pela Estrada Nacional 218, que assegura a ligação no eixo este–oeste, nomeadamente a Vimioso.

O território de Malhadas apresenta um povoamento muito antigo, comprovado pelos diversos vestígios arqueológicos identificados na região. No início da monarquia portuguesa, D. Sancho I doou esta terra a D. Nuno de Zamora, D. Pedro Ponce, D. André, D. Miguel e D. Salvador, com a obrigação de defesa do lugar em caso de cerco, o que atesta a sua importância estratégica. Neste período, Malhadas detinha já o estatuto de vila, evidenciando a sua relevância histórica no contexto regional.

A origem do topónimo “Malhadas” permanece objeto de debate historiográfico. As Inquirições do século XIII referem a povoação como “Malada”, designação que, segundo um documento de 1202, correspondia a um antropónimo feminino. Paralelamente, o termo assumia também significados associados a obrigações servis ou a regimes de exploração pastoril, o que reflete a forte ligação histórica da localidade às atividades agropecuárias.

A economia local assenta tradicionalmente na agricultura, na pecuária e na pastorícia, atividades que continuam a estruturar o território e a paisagem. A existência de um posto zootécnico e a presença de associações ligadas à criação de ovinos da raça Churra Galega Mirandesa e de bovinos da raça Mirandesa reforçam o papel de Malhadas como polo relevante na valorização das raças autóctones e da produção pecuária regional, complementadas por comércio e artesanato de base local.

O património cultural e arquitetónico de Malhadas é particularmente expressivo. Destacam-se a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Expectação, classificada como Imóvel de Interesse Público, as capelas de São Bartolomeu e de Nossa Senhora das Dores, o cruzeiro, as alminhas, a atalaia medieval, o Caminho Mourisco e diversos vestígios arqueológicos, incluindo esculturas rupestres, lápides e o castro conhecido como “Marmolina”. A dinâmica sociocultural é sustentada por um associativismo ativo, com especial destaque para o Grupo de Pauliteiros, e por um calendário festivo que reforça a identidade comunitária e a continuidade das práticas culturais tradicionais.

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Cordeiro / Canhono Mirandês DOP

O Cordeiro / Canhono Mirandês DOP resulta da criação da raça ovina autóctone Churra Galega Mirandesa, adaptada ao planalto mirandês e às suas condições edafoclimáticas específicas. Criados em regime extensivo, estes animais alimentam-se maioritariamente de pastagens naturais e recursos forrageiros locais, o que confere à carne características sensoriais próprias, nomeadamente textura tenra, sabor suave e elevada qualidade nutricional. A Denominação de Origem Protegida assegura a ligação direta entre o produto, o território e os modos tradicionais de produção, garantindo a rastreabilidade e a preservação de práticas ancestrais.

Do ponto de vista cultural e alimentar, o Cordeiro / Canhono Mirandês ocupa um lugar central na gastronomia tradicional da Terra de Miranda, estando associado a contextos festivos, rituais religiosos e momentos de convívio comunitário. A sua presença nas mesas locais reflete um sistema agroalimentar de pequena escala, profundamente enraizado na economia familiar e na gestão sustentável do território. A valorização deste produto DOP contribui não só para a salvaguarda de uma raça autóctone e de saberes tradicionais, mas também para a afirmação da identidade cultural mirandesa e para o reforço de estratégias de desenvolvimento rural sustentável.

Receita:

Para a confeção desta receita utilizam-se cerca de 1 quilo de costeletas de cordeiro ou canhono de raça Churra Galega Mirandesa, temperadas apenas com sal, respeitando o sabor próprio da carne. Começa-se por fazer um bom braseiro com lenha de carrasco, freixo ou vides de vinha, deixando formar brasas bem vivas. A grelha deve aquecer devidamente sobre as brasas antes de receber a carne.

Colocam-se então as costeletas na grelha quente e deixam-se grelhar cerca de quatro minutos de cada lado, até ficarem bem douradas por fora e suculentas por dentro. Retiram-se do lume e reservam-se, servindo-se de imediato.

As costeletas acompanham-se tradicionalmente com batatas cozidas, pimentos assados e molho de tomate. Para as batatas, lava-se bem cerca de 1 quilo de batatas com casca e cozem-se em água temperada com sal. Depois de cozidas, escorrem-se e retiram-se as peles ainda quentes, reservando-as.

Os pimentos, também cerca de 1 quilo, devem ser assados diretamente em lume de vides até a pele ficar bem tostada. Depois de assados, retiram-se as peles e temperam-se com sal, azeite e alho picado.

Para o molho de tomate, usam-se dois tomates grandes da horta. Retiram-se as peles e cortam-se em fatias. Numa frigideira coloca-se cerca de um centímetro de azeite e uma cebola cortada em rodelas finas, deixando alourar ligeiramente. Junta-se o tomate, uma folha de louro, dois dentes de alho picados, sal e uma colher de chá de colorau. O molho deve ferver lentamente até reduzir e ganhar consistência. No final, verte-se o molho quente por cima das batatas e dos pimentos assados, servindo tudo em conjunto com as costeletas acabadas de grelhar.

Para além da receita...

As “batatas a rodar cun molho de tomate i pumientos assados” era um prato muito popular de verão. Já se tinham colhido as primeiras batatas e a horta já abastecia a casa em pimentos e tomates.

Há uma “lhona” muito popular sobre este prato que conta assim:

“Un cardador andaba an Algoso a cardar i to ls dies, a meidie i a la nuite, ls amos, solo de dában patatas cozidas a rodar cun pumientos assados i molho de tomate. Passado ua sumana, yá farto de l comido, fui-se a cardar para outros amos de Teixeira. Al purmeiro almuorço que le dórun, tocou-le papatas cozidas a rodar cun pumientos assados i molho de tomate. Zacracionado de la bida, diç-se para el solo:
– Foda-se, estas putas de las patatas a rodar cun pumientos i molho de tomate, chegòrun purmeiro que you, de certeza que sáben atalhos.”