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Abel de Jesus Pires Martins

De La Tierra Pa La Mesa

Peixicos de la Ribeira

Peixes do rio

1947

Nasceu, cresceu e fez a escolaridade na aldeia de Caçareilhos. Cumpriu o serviço militar em Angola, com a especialidade de quarteleiro. Casou e já 52 anos que reside em Samartino. Cumo condutor taxista ao serviço de José Maria Conde, fez muitos fretes de táxi para a França e trabalhou muito com os passadores. Ainda chegou a ser preso por exercer esta atividade ilegal na altura.

Os peixicos da ribeira eram pescados por todo a gente da aldeia, sobretudo no princípio da primavera quando cascalhavam. Comidos fritos em azeite e em escabeche de cebolada eram um verdadeiro manjar apreciado por todos. Hoje em dia a ribeira tem muito menos peixicos.

Freguesia de São Martinho de Angueira

São Martinho de Angueira (San Martino) é uma freguesia do concelho de Miranda do Douro constituída por um único aglomerado populacional, que corresponde simultaneamente à sede da freguesia. A acessibilidade à cidade de Miranda do Douro, localizada a cerca de 25 km, é assegurada pelas Estradas Municipais 542 e 544, garantindo a ligação funcional ao restante território concelhio.

O povoamento da freguesia remonta a períodos muito antigos, pelo menos de época proto-histórica, como atestam os numerosos vestígios arqueológicos identificados. Destacam-se dois castros: o castro do Pisão, próximo da azenha dos Currais, e o castro do Rebullhal, situado a sul da capela de Santa Cruz. Estes sítios evidenciam a ocupação fortificada do território e a sua importância estratégica em épocas recuadas.

A tradição oral e as fontes históricas, nomeadamente as referências do Padre Luís Cardoso em 1758, associam estes castros a ocupações atribuídas aos mouros, referindo a existência de estruturas defensivas, como fossos e cercas de pedra, e a possível presença de uma capela no castro do Rebullhal. Acrescem ainda gravações rupestres e a descoberta de objetos metálicos, incluindo uma espada, que reforçam o valor arqueológico e patrimonial da freguesia.

Com uma área aproximada de 3 700 hectares e cerca de 307 residentes, São Martinho de Angueira apresenta uma base económica assente na agricultura e na pecuária, complementadas por atividades de comércio e artesanato de carácter local. A dinâmica comunitária é apoiada por um conjunto diversificado de associações culturais, recreativas, agrícolas e desportivas, incluindo o Grupo de Pauliteiros, que desempenha um papel central na salvaguarda do património cultural imaterial.

O património edificado e paisagístico inclui a Igreja Matriz, a capela de Santa Cruz (ou Santo Cristo), diversos cruzeiros e os castros identificados, bem como as estruturas de antigos empreendimentos mineiros que, durante a primeira metade do século XX, constituíram um importante motor de desenvolvimento local. Destacam-se ainda os vestígios de vários moinhos, alguns recuperados, e a zona ribeirinha do rio Angueira, espaço de elevado valor ambiental e recreativo, que reforça a atratividade e a qualidade paisagística da freguesia.

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Peixes do rio

Os peixes de rio ocuparam historicamente um lugar relevante na alimentação e na cultura ribeirinha da Terra de Miranda, em particular nos cursos de água que estruturam o território, como o Douro e os seus afluentes. Espécies autóctones como o sável, o barbo, o boga e o escalo integraram durante séculos o regime alimentar das populações locais, sendo capturadas de forma sazonal e associadas a técnicas de pesca tradicionais, muitas delas transmitidas oralmente entre gerações. As pescarias constituíam não apenas uma fonte complementar de alimento, mas também um importante espaço de sociabilidade, regulado por conhecimentos empíricos sobre os ciclos do rio, os períodos de defeso e o comportamento das espécies.

Nas últimas décadas, estes sistemas ribeirinhos têm sofrido transformações profundas, refletidas na redução acentuada das populações de peixes autóctones. A construção de barragens, a alteração dos regimes hidrológicos, a degradação da qualidade da água e a sobrepesca contribuíram para o declínio de espécies migradoras e residentes. Paralelamente, a introdução de espécies exóticas invasoras, como o achigã ou o siluro, alterou os equilíbrios ecológicos, competindo com as espécies nativas e afetando as cadeias alimentares

Receita:

Os Peixicos de la Ribeira fazem-se com peixe miúdo pescado no rio Angueira, nomeadamente bogas, escalos, barbos e xardas. Depois de pescado, o peixe deve ser bem preparado: retiram-se as vísceras e lava-se cuidadosamente em água fria. Temperase de seguida com sal, alho, uma folha de louro e erva peixeira, deixando repousar cerca de uma hora para tomar gosto.

Para a fritura, coloca-se numa frigideira uma camada generosa de azeite, com cerca de dois centímetros de altura. Quando o azeite estiver bem quente, frita-se o peixe até ficar bem dourado e estaladiço. Retira-se e deixa-se escorrer sobre papel ou pano, reservando.

Entretanto prepara-se o molho de escabeche. Numa frigideira larga, coloca-se bastante azeite e duas cebolas cortadas em rodelas finas. Leva-se a lume brando, deixando alourar lentamente até a cebola ficar macia e translúcida. Junta-se então uma folha de louro, dois dentes de alho, quatro colheres de sopa de vinagre de vinho, duas colheres de chá de colorau, erva peixeira e uma malagueta. Deixa-se ferver durante cerca de cinco minutos, retira-se do lume e deixa-se amornar.

Numa travessa dispõem-se os peixes fritos e cobre-se tudo com o molho de escabeche ainda morno. Deixa-se repousar durante algumas horas, para que o peixe absorva bem os sabores. Servem-se frios, acompanhados de pão, como petisco tradicional, muito apreciado a meio da tarde.

Para além da receita...

Com as suas hortas verdejantes que ladeiam a ribeira, São Martinho de Angueira é um vergel de fertilidade.

Ao longo do curso da ribeira, quase rio, distribuíam-se vários moinhos que transformavam o cereal colhido no “Praino” em farinha para confecionar o pão de cada dia.

Nas condutas que levavam a água ao moinho, era costume colocar uma cesta de verga que coava a água que fazia girar o rodízio, mas que retinha o peixe que nela circulava.

Havia várias outras formas de subtrair o peixe à ribeira, nomeadamente recorrendo a pequenas redes de fortuna (teson), ou a ervas várias (embude, trovisco, cássamo) que se pisavam obtendo uma massa que se adicionava aos remansos de água e lhe retirava o oxigénio, impossibilitando assim a respiração do peixe, obrigando-os a vir à superfície completamente desorientados.