Susana Simeão Ruano
- Freguesia de Miranda do Douro
- Açúcar e canela
- Bolha Doce Mirandesa
Bolha Doce Mirandesa
Açúcar e canela
1982
Voltou para Portugal com 8 meses. Residiu com os pais em Dues Eigreijas. Completou o ensino secundário e ingressou na Universidade UTAD em Vila Real. Atualmente é técnica superior na Associaçon de Lhéngua i Cultura Mirandesa, onde desenvolve vários projetos de promoção e defesa da lhéngua mirandesa.
Em casa de sua mãe sempre se fez “bolha doce mirandesa” com sete camadas. Todos são grandes apreciadores desta iguaria, que gostam de acompanhar com um copinho de vinho do Porto
Freguesia de Miranda do Douro
Miranda do Douro (Miranda de l Douro) é a freguesia sede do concelho e integra, além da cidade, os lugares de Aldeia Nova, Palancar, Pena Branca e Vale d’Águia. Implantada sobre as margens escarpadas do rio Douro, a cidade ocupa uma posição dominante sobre o vale internacional do Douro, em contacto direto com a região espanhola de Castela e Leão, circunstância que condicionou historicamente a sua função estratégica e defensiva.
A ocupação humana do território remonta à Idade do Bronze, tendo Miranda assumido particular relevância durante o período romano, sob as designações de Conticum, Paramica e Seponcia. Conquistada pelos Árabes em 716, recebeu o nome de Mir-Andul, do qual derivou a atual designação. Reconquistada e fortificada em 1136 por D. Afonso Henriques, a localidade recebeu foral com privilégios excecionais, visando atrair povoadores e reforçar a defesa da fronteira.
Em 1286, D. Dinis concede novo foral, eleva Miranda à categoria de vila, define o termo do concelho e promove o reforço das estruturas defensivas. A sua centralidade política e religiosa consolida-se em 1545, com a criação da Diocese de Miranda do Douro por bula do Papa Paulo III e a elevação da vila a cidade, reforçando o seu papel institucional no nordeste transmontano.
A relevância estratégica de Miranda do Douro traduziu-se numa participação recorrente em conflitos militares, com particular impacto durante a Guerra dos Sete Anos, em 1762, quando a explosão do paiol da praça-forte provocou a destruição significativa da cidade e profundas consequências demográficas, urbanas e institucionais, culminando na transferência definitiva da sede da diocese para Bragança em 1780.
Após um prolongado período de declínio, a cidade inicia um processo de recuperação a partir de 1956, com a construção da Barragem Hidroelétrica de Miranda, que impulsionou o crescimento populacional, a economia local e as acessibilidades transfronteiriças. Atualmente, Miranda do Douro afirma-se como um centro urbano de forte identidade cultural, social e religiosa, assumindo-se como referência histórica e simbólica de Trás-os-Montes em contexto de fronteira.
Açúcar e canela
O açúcar e a canela, embora não produzidos no território transmontano nem na Terra de Miranda, assumem um papel determinante na construção do receituário tradicional português, em particular no domínio da doçaria. A sua introdução na alimentação resultou de processos históricos de circulação de produtos, associados ao comércio marítimo, às redes coloniais e à progressiva integração de ingredientes exógenos nas práticas culinárias locais. Ao longo do tempo, estes produtos foram apropriados pelas cozinhas regionais, passando a integrar receitas festivas, rituais religiosos e momentos de celebração, onde o doce assume um valor simbólico de abundância, partilha e
excecionalidade.
Na doçaria transmontana e mirandesa, o açúcar e a canela desempenham uma função estruturante, equilibrando sabores intensos e enriquecendo preparações à base de cereais, ovos, frutas secas e gorduras animais. A canela, em particular, introduz uma dimensão aromática distintiva, amplamente associada à doçaria tradicional portuguesa, enquanto o açúcar permite a conservação, a textura e a valorização sensorial dos preparados. A sua presença no receituário local evidencia a capacidade das cozinhas tradicionais de integrar ingredientes externos sem perder identidade, revelando processos de adaptação cultural que articulam produtos globais com práticas, saberes e significados profundamente enraizados no território.
Receita:
Para a confeção da Bolha Doce Mirandesa começa-se por preparar uma massa semelhante à do folar. Num alguidar grande colocam-se cerca de 1300 g de farinha de trigo, uma pitada de sal e cinco ovos. À parte, desfazem-se 30 g de fermento de padeiro numa pequena quantidade de água morna. Junta-se o fermento à farinha e aos ovos, acrescentando depois 1 dl de azeite ligeiramente morno e 130 g de manteiga previamente derretida. Vai-se adicionando, aos poucos, cerca de meio litro de água morna, amassando bem até obter uma massa homogénea, elástica e bem trabalhada. Cobre-se a massa com um pano previamente aquecido e deixa-se levedar em local resguardado até duplicar de volume, ficando no ponto certo para trabalhar.
Enquanto a massa leveda, prepara-se o recheio, misturando 800 g de açúcar amarelo com 200 g de canela. Barra-se um tabuleiro grande com manteiga. Depois de levedada, divide-se a massa em porções para formar várias camadas. Com a ajuda de um rolo, estende-se uma primeira camada fina que cobre o fundo do tabuleiro e extravasa cerca de sete centímetros para fora, nos quatro lados. As restantes camadas são estendidas à medida exata do tabuleiro. Sobre cada camada pincela-se generosamente com azeite e manteiga derretida e distribui-se uma parte da mistura de açúcar e canela.
No total, fazem-se sete camadas de massa, repetindo sempre o mesmo processo. Depois de colocada a última camada, dobra-se a massa excedente da primeira camada sobre o topo, unindo bem às bordas da última camada. Com os dedos, comprimem-se cuidadosamente as extremidades para selar a bolha, evitando que o recheio extravase durante a cozedura. Leva-se a cozer em forno bem quente durante cerca de uma hora, até a bola ficar bem dourada e cozida por dentro. Retira-se do forno e deixa-se repousar antes de servir.
Para além da receita...
Lenda recente acerca de Bola Doce Mirandesa:
“Ne l ampercípio de to ls ampercípios, an solo seis dies, Dius criou l mundo: criou la lhuç; l cielo; la tierra seca i la begetaçon; ls cuorpos celestes (l sol, la lhuna i las streilhas); ls animales aquáticos i ls páixaros; ls animales terrestres i l ser houmano. Sastisfeito cula sue obra prima de la criaçon, al sétimo die, Dius çcansou. Anquanto se repousaba, Dius decidiu cozinar la melhor de las eiguaries, cun tantas camadas cumo dies durou la sumana de la criaçon: siete. Fizo ua massa dóndia que l habie de saciar tal un folar de páscoa, antercalando antre cada ua de las siete finas camadas, un recheno d’açucre i canela. Apuis de la sacar de l forno, para que nun fuossen redondos cumo l ouniberso, Dius cortou la sua lhambiatice an quadradicos pequeinhos. Anstalou-se bien aquemodado acontra l tuoro dua árbole de l paraíso i ampeçou a porbar la sue bolha! Julgando-se cumpletamente solo, sclamou la sue alegrie an boç alta, gritando: AGORA SI, L CIELO EISISTE MESMO! Bien scundida antre l monte, Eba spreitou-lo, i an segredo, a todo assistiu. Apuis de spulsa de l éden, Eba bieno a bibir para Miranda de l Douro, l que significa eisatamente la mesma cousa! Inda hoije las mulhieres mirandesas, guárdan la tradiçon que Eba roubou a Dius i le trasmitiu solo a eilhas. Pul tiempo de la quaresma, cumo nun puoden pecar, cuntínan a fazer ua massa aparecida a la de ls folares de la páscoa, mas más lhebe, i antre cada ua de las siete camadas, an beç de chicha, pónen un recheno d’açucre i canela. Apuis de cozida an forno de lheinha, cortar als quadradicos, hoije an die yá ye facultatibo: solo por essa rezon, esta tradiçon mirandesa, yá nun ye bien l q’era!”
